Depois que o Presidente da República, Jair Bolsonaro, determinou que as unidades militares do país comemorassem o Golpe de 1964, as discussões sobre as homenagens ao período voltaram à tona em Campinas. A polêmica foi reacesa depois que o porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros, afirmou que o presidente havia determinado ao Ministério da Defesa que faça as “comemorações devidas” pelos 55 anos do golpe que deu início à ditadura militar.
As discussões sobre o assunto tomaram conta das redes sociais nos últimos dias e muita gente criticou o fato de que uma data que marcou o início de um dos períodos mais violentos do Brasil seja realmente comemorada. Por conta disso, antigas questões retornaram ao debate, como as homenagens feitas ao período e seus representantes em nomes de bairros, ruas e rodovias da cidade.
Em Campinas, por exemplo, são várias referências ao período da ditadura. O bairro Vila 31 de Março faz referência direta ao dia do golpe. Lá existem pessoas que são favoráveis e contrárias à mudança do nome do bairro. Para o historiador Felipe Santos, a nomeação do bairro tem um significado negativo e a alteração seria bem vinda. Sem se preocupar com quem foi ou deixaria de ser homenageado, Ademir Gomes da Silva disse que uma eventual mudança no nome do bairro traria muitos problemas burocráticos para os moradores.
Em Campinas, há ainda a Vila Costa e Silva, que homenageia o ex-presidente que teve seu governo marcado pela tortura dos opositores políticos ao regime, pelo cerceamento da livre expressão e de direitos políticos, institucionalizando a repressão. A Rodovia Zeferino Vaz, que hoje homenageia o fundador da Unicamp, foi primeiramente batizada de Rodovia General Milton Tavares de Souza, diretor do Centro de Informações do Exército durante o governo Médici. Nessa função, foi responsável pela política de eliminação física dos inimigos do regime, se tornando em seguida responsável pela organização dos DOI-Codi em todo o Brasil. Em 4 de junho de 2010, foi aprovada uma lei, de autoria do deputado estadual Milton Flávio, do PSDB, que alterou a denominação da rodovia.
Para o professor, pesquisador e analista internacional, Lejeune Mirhan, é constrangedor que uma cidade como Campinas ainda renda tantas homenagens às figuras que estiveram na linha de frente da ditadura no Brasil. Segundo ele, os outros países da América do Sul que passaram por ditadura prenderam e condenaram seus representantes ao passo que no Brasil essas pessoas permaneceram livres, sendo agraciadas.
A Câmara de Campinas também já discutiu a mudança de nome dos logradouros que homenageiam pessoas que participaram do período da ditadura militar.O vereador Gustavo Petta, do PC do B conseguiu a aprovação de uma lei em 2013 que proíbe o município de homenagear pessoas que praticaram crimes de lesa humanidade ou violação dos direitos humanos. O parlamentar explica que a proibição só passou a valer a partir da data da sanção da lei, não podendo assim, alterar as homenagens feitas no passado.
Depois de toda a repercussão, o presidente Jair Bolsonaro voltou atrás em sua decisão e declarou nesta quinta-feira que o documento assinado pelo Ministério da Defesa e pelas Forças Armadas, a ser lido nos quartéis em referência a 31 de março de 1964, não teve o objetivo de “comemorar” o golpe. A intenção da determinação feita pelo presidente, segundo ele próprio, era “rememorar” o fato e identificar pontos corretos e errados para o “bem do Brasil no futuro”.