Daniel Ete sobre a falta de incentivos: Campinas poderia ter um Abril Pro Rock



Entrevista: Valéria Hein

Texto: Henrique Bueno e Leandro Las Casas

Agitador cultural e músico de várias bandas, o currículo de Daniel Ete fala por si só. Como baixista do Muzzarelas, ele colocou a cidade no cenário do rock mundial, já que a banda é reconhecida internacionalmente. O músico foi responsável por trazer lendas para tocar nas casas de shows da região. Dono de opiniões fortes, Ete fala do momento musical do Brasil, os caminhos do rock autoral e lamenta por Campinas não ter se tornado um polo do rock mundial por falta de incentivo político.

Trajetória e bandas

Daniel Ete é reconhecido principalmente como o baixista dos Muzzarelas. Mas seu trabalho transpassa a banda que lhe deu projeção. O talento para música é ‘aproveitado’ em várias outras bandas. Ele foi baixista da Desenmascarado e atualmente integra o Drakula e o Bong Brigade.

“A gente teve a sorte de cruzar com pessoas legais, que abriram as portas para a gente. O João Gordo é um dos nossos padroeiros”

Há 28 anos na estrada com os Muzzarelas, o músico se diverte com a ousadia no início da carreira. “A gente não sabia se levar a sério”, resume. Mas o surgimento de um padrinho mudou a história da banda, que viria a se tornar uma referência do rock nacional. “Aí apareceu o João Gordo (apresentador e vocalista da banda Ratos de Porão). Ele é um cara que deu uma grande força para a gente, quando estávamos começando. Ele ofereceu uma baita oportunidade para a gente gravar nosso primeiro disco, levou a gente para tocar no Rio de Janeiro, no antigo Circo Voador. O João é um dos nossos padroeiros”, conta agradecido.
Outro nome que alavancou o Muzzarelas no cenário nacional foi Caio Ribeiro. O produtor musical e engenheiro de som, que trabalhou com bandas como Guardian of Lightning, Adrede, Tolerância Zero, Xav e Letal Charge, praticamente arrastou os músicos para dentro do estúdio. “A gente nunca tinha gravado nada. Eu mesmo nunca tinha ouvido o que nós fazíamos. A gente não tinha muita noção das coisas. O Caio obrigou a gente a gravar, para mostrar como éramos bons”, relembra. Caio Ribeiro morreu em 2018 e ainda hoje, Ete demonstra gratidão. “O Caio era nosso grande mestre, amigo e irmão. Foi através dele que eu percebi como a banda era boa”, diz.
Outro ponto importante no início da carreira foi buscar o público. E os problemas que surgiam pelo meio do caminho, eram resolvidos com certa dose de criatividade. “A gente gostava de Ramones. Então a gente se juntava e fica lá tocando as músicas lado B. O nosso batera tinha alguns contatos com a galera que fazia as festas nas escolas e começou a agendar alguns shows, dizendo que a gente era uma banda cover dos Ramones. Eu dizia que queria tocar nossas músicas e, para me convencer, os caras disseram para a gente tocar junto com as covers. Ninguém iria perceber”, risos.

Criatividade e underground

Integrante de várias bandas, Daniel Ete não vive só de música. Hiperativo, exerce sua criatividade em várias outras frentes. Ele é apaixonado por desenho, por exemplo. “Na verdade eu sou um desenhista que formou uma banda de rock para desenhar as capas dos álbuns”, diz. Ele é responsável pelas ilustrações de quase toda a discografia dos Muzzarelas. “E não é só capa de disco não. Eu faço cartazes, camisetas. Outro dia eu estava fazendo uma arte na parede de um restaurante”, diz.

“O grande público de Campinas só consome o que é levado a ele. Ele não busca nada de novo.”

Ete tinha uma loja de discos na Rua Barreto Leme, no Centro de Campinas, a Chop Suey Discos, onde teve a oportunidade de conhecer gente interessante e emendar um trabalho atrás do outro. “Eu e o pessoal que frequentava a minha loja estamos fazendo uma animação. Chama ‘Rascunho do Inferno’, uma história que se passa no inferno, cheia de piada estranha e com uma trilha sonora bem pesada, com muito punk rock e hardcore”.
Mas quando questionado sobre o porquê de tanto trabalho não ser reconhecido pela maior parte do público da cidade, Daniel Ete tece uma crítica sobre o interesse geral da população. “O grande público da cidade só consome aquilo que é levado até ele. O pessoal não busca nada de novo. Mas ainda assim, tem muita gente interessada em arte. Você tem que cavucar, buscar as coisas que estão rolando por aí”, afirma. Sobre o que procurar para se divertir, Ete é direto. “É só você escolher o nicho. Tem muita coisa acontecendo por aí. Têm altos DJs de reggae, uns caras bons demais. Você tem o Sistema Negro (grupo de Rap) aqui em Campinas que é um patrimônio da cidade. Tem banda de rock, de MPB. Enfim, muita coisa acontecendo”, resume.

E dentro do rock, ele vê espaço para todo mundo se divertir. “Molecada se junta com molecada. Não posso exigir que o público jovem se junte comigo, o veião. Eu vejo uma galera que quer ser mais roqueira que a outra. Tem espaço para todo mundo hoje em dia. Eu adoro conversar com a galera mais nova”, garante.

Juntatribo e Autorock

A estrada da música levou Daniel Ete para outras atividades nos bastidores do cenário. Naturalmente, ele se viu na função de agitador cultural. Tudo começou ainda nos primeiros anos da década de 90, quando participou do Juntatribo, tocando no Muzzarelas, um festival que começou de maneira intensa e acabou com a mesma velocidade. “Nós fomos pedir apoio na Secretaria de Cultura de Campinas. Eles riram da nossa cara. Olha como o Mundo Livre e o Chico Science & Nação Zumbi levaram o nome de Recife para o mundo. Campinas perdeu a oportunidade de ter um Abril Pró Rock”

O Juntatribo foi um festival de música realizado no Observatório a Olho Nu, na Unicamp, em Campinas e contou com duas ediçõesː uma em 1993 (de 17 a 19 de agosto) e outra em 1994 (de 16 a 18 de setembro). O festival ganhou destaque por ter revelado bandas como Raimundos, Planet Hemp, Wry, Relespública, Pin Ups e Little Quail. “Foi o primeiro show dos Raimundos no estado de São Paulo. No primeiro Juntatribo, ninguém tinha ouvido falar neles e o pessoal se divertia com o nome da banda. Na segunda edição do festival, eles já eram grandes. 15 dias depois eles estavam tocando no Monsters of Rock. Nesse um ano e pouco eles se tornaram a maior banda do Brasil”, relembra.
O festival marcou uma geração em Campinas. E não foram apenas os jovens da época que miraram no exemplo dos artistas que passaram pelo palco do Juntatribo. “O ponto forte do Juntatribo foi ter mostrado para o Brasil essa nova forma de se vestir, de se comportar em cima do palco e de fazer música que fugia da estética de Capital Inicial e de Legião Urbana. Foi uma coisa engraçada, teve o Juntatribo e passou uma semana, o Dinho Ouro Preto estava usando aqueles ‘visus’ de grunge. O cara não era tonto”, se diverte.

Após 10 anos do primeiro Juntatribo, veio a ideia de um novo festival: o Autorock. “A gente trazia uma porção de bandas para tocar em Campinas, até que alguém chegou e perguntou por que a gente não trazia as bandas, todas de uma vez”, lembra. Então surgiu o Autorock, que começou em 2003 e teve 11 edições. Tem ano que não dá pra fazer, tem ano que conseguimos fazer duas edições. Assim a gente vai levando. É uma equação difícil, entre o que a gente gostaria de fazer e o que a gente consegue fazer”, afirma. Mesmo com as dificuldades, o Autorock se firma como um espaço que dá visibilidade às bandas autorais. “Temos que valorizar quem é responsável pelo próprio conteúdo. Quem toca cover tem seu espaço em outros lugares”, conclui.

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