CBN Ribeirão 99,1 FM
Colunistas
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Compartilhe

Documentos mostram como funcionava suposto esquema de fraudes na Educação

Deflagrada nesta quarta-feira (12) pela Polícia Federal, a “Operação Coffee Break” mira um suposto esquema de superfaturamento na compra de materiais educativos por prefeituras municipais. As fraudes foram apuradas em

Documentos mostram como funcionava suposto esquema de fraudes na Educação
Empresário André Mariano deixa a sede da PF de Campinas na quarta-feira (12) (Foto: Kevin Kamada/CBN Campinas)

Deflagrada nesta quarta-feira (12) pela Polícia Federal, a “Operação Coffee Break” mira um suposto esquema de superfaturamento na compra de materiais educativos por prefeituras municipais.

As fraudes foram apuradas em parceria com a Controladoria Geral da União em cidades de São Paulo, do Paraná e do Distrito Federal. Ao todo, os agentes cumpriram 50 mandados de busca e apreensão.

Outras seis ordens de prisão preventiva contra suspeitos de serem os articuladores do esquema também foram cumpridas contra André Gonçalves Mariano, apontado como sócio-administrador da empresa “Life Tecnologia Educacional”; o vice-prefeito de Hortolândia, Carlos Augusto César (PSB), o “Cafu”; o secretário de Educação de Hortolândia, Fernando Gomes de Moraes; o empresário Abdalla Ahmad Fares; Eduardo Maculan, apontado como doleiro no esquema e o secretário de Educação de Sumaré, José Aparecido Ribeiro Marin. Até a noite desta quarta-feira, o mandado contra Marin não havia sido cumprido pela Polícia.

Documentos aos quais o Grupo EP teve acesso explicam a articulação do esquema de superfaturamento em materiais educativos, vendidos pela Life Tecnologia Educacional e comprados por Prefeituras da região.

Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a empresa superfaturava os valores de livros didáticos e kits de robótica vendidos para as redes de ensino. A partir da análise de movimentações financeiras, o MPF identificou movimentações atípicas para os padrões da empresa.

De acordo com o MPF, a LIFE adquiria livros com valores unitários entre R$ 1 e R$ 5, mas revendia para os municípios por valores entre R$ 60 e R$ 80.

As notas fiscais ajudaram a embasar as investigações. Em Sumaré, no período de 2021 a 2023, a Life recebeu mais de R$ 51,9 milhões da Prefeitura Municipal. Parte dos valores era oriundo do FUNDEB (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica).

em Hortolândia, o MPF aponta ganhos da Life superiores a R$ 17,9 milhões. Em Limeira, os lucros teriam superado os R$ 10,7 milhões. As movimentações teriam continuado a acontecer ao longo de 2024.

Os promotores também apontam que relatórios de inteligência financeira mostram como a Life usou sua elevada margem de lucro na aquisição de bens pessoais do seu sócio.

Empresas de fachada também aparecem na denúncia, e seriam controladas por “doleiros”. No entendimento da promotoria, o esquema buscava ocultar a origem e o destino das transações.

A Life Tecnologia Educacional tem, como sócio-administrador, o empresário André Gonçalves Mariano. Ele é apontado pelo Ministério Público como “um articulador corriqueiro de pagamentos indevidos a servidores públicos e lobistas”. Estes, seriam os responsáveis por garantir que a Life vencesse os pregões milionários junto às Prefeituras.

Relatórios financeiros mostram que a Life Tecnologia movimentou mais de R$ 128 milhões, por meio de 305 operações bancárias, entre janeiro de 2021 e julho de 2024.

Quase todos valores oriundos de recursos públicos, com destaque para os pagamentos feitos pelas prefeituras de Sumaré, Hortolândia e Limeira.

O Ministério Público Federal afirma que o empresário André Gonçalves Mariano, o sócio-administrador da LIFE, seria o principal beneficiário do esquema, com três objetivos:

  • A compra de carros de luxo, blindagens e imóveis;
  • A retroalimentação da compra de livros e kits de robótica para serem superfaturados;
  • E o pagamento de remessas para os doleiros, por meio de contas bancárias das empresas de fachada.

A promotoria também afirma, confirmando a linha de investigação, que apenas 17% dos valores movimentados eram direcionados para os fornecedores, ou seja, os fabricantes dos livros didáticos e kits de robótica que seriam superfaturados.

Outra característica da fraude seria o uso de uma das empresas de fachada como um “banco clandestino”. É o que aconteceu com a empresa identificada com o nome fantasia de “Les Barons”, que se apresentava como uma loja de vinhos.

Em nota enviada ao Grupo EP, a Life Tecnologia Educacional declarou que não irá se pronunciar sobre as investigações.

Já a defesa de Abdalla Ahmad Fares afirmou que, até esta quarta-feira (12), não havia tido acesso aos autos do processo, uma vez que ainda aguarda o cumprimento das medidas cautelares deferidas.

Os advogados afirmam que Fares atua exclusivamente nos setores supermercadista e de construção civil, e que não tem ligação com empresas de educação, nem com contratos públicos em Hortolândia e Sumaré. A defesa do empresário diz acreditar na inocência do seu cliente.

A defesa de Fernando Moraes disse que “foi surpreendida pela execução da prisão preventiva, sobretudo por que Fernando construiu sua trajetória pública pautada pela legalidade e pela integridade, especialmente durante sua gestão na Secretaria de Educação de Hortolândia. No mais, a defesa reitera sua confiança de que os fatos serão devidamente esclarecidos e sua inocência reconhecida.”

Em Sumaré, a atual gestão da Prefeitura informou que tem colaborado integralmente com as autoridades, fornecendo todos os documentos e informações solicitadas.

A Administração municipal reforçou que os fatos investigados referem-se exclusivamente à gestão anterior, e não envolvem contratos ou ações do governo atual.

Já a defesa do vice-prefeito de Hortolândia, Cafu César (PSB), afirma que os autos do processo ainda estão sendo analisados, e que deverá solicitar a reversão da prisão preventiva de Cafu.

A Prefeitura de Hortolândia informou que está à disposição dos órgãos de segurança para colaborar com as apurações.

Até o fechamento desta reportagem, não foram localizadas as defesas de Eduardo Maculan e José Aparecido Ribeiro Marin.

Conteúdos