CBN Campinas 99,1 FM
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Compartilhe

Berço mundial da laranja, centro de pesquisas do IAC estuda solução para combater o greening

CBN visita o Centro de Citricultura em Cordeirópolis, que tem 1.800 variantes da laranjeira; conheça
Berço mundial da laranja, centro de pesquisas do IAC estuda solução para combater o greening
Pesquisador mostra enxerto em laranjeira, uma das formas de testar a resistência a intempéries (Foto: Kevin Kamada/CBN Campinas)

Ei, você sabe o que influencia na cor do cabelo de uma pessoa, ou então por que, às vezes, um filho pode ser mais parecido com a mãe do que com o pai? 

Quem tem a resposta para essas perguntas é a “genética”, a ciência dedicada ao estudo dos genes, as combinações de caracteristicas que dão origem a um organismo vivo. Mas você sabia que a genética tambem esta nas frutas? 

Há exatamente 98 anos, o Centro de Citricultura “Sylvio Moreira”, do Instituto Agronômico de Campinas, escolhia uma área de 200 hectares às margens da Rodovia Anhanguera em Cordeirópolis (SP) para estudar e melhorar as frutas que se tornaram a cara do Brasil. 

As frutas cítricas como a laranja, a tangerina e o limão não são naturais do Brasil. Muitas delas oriundas da Índia e da China, mas chegaram ao Hemisfério Sul junto com os colonizadores das Americas, no final do século 16. 

Mas pensar que os frutos que vieram na mala dos europeus sao iguais aos que a gente encontra hoje no varejao é um engano. 

Por um tempo, as sementes e o bagaço podem até ter germinado, mas nenhuma espécie vinga em um solo sem ter o chamado melhoramento genético. Exatamente o que o pesquisador do IAC, Rodrigo Rocha Latado, estuda há pelo menos 30 anos.

“O objetivo é produzir, avaliar e selecionar novas variedades. Verificar a produtividade delas, ver se elas são ou não resistentes a doenças. Qualidade de fruto, qualidade de suco. E depois que a gente avalia isso, se tiver alguma variedade de grande interesse, a gente faz o registro junto ao Ministério da Agricultura e libera ela para o plantio dos produtores. O que a gente mantém aqui nas nossas estufas são as plantas matrizes ou plantas-mãe, que vão dar origem a quase 100% das plantas que são produzidas de citros dentro do estado de São Paulo e, talvez, até outros estados próximos. A maioria dessas plantas passaram ou saíram do Centro de Citricultura“, orgulha-se.

Sabor oriental e clima tropical: uma combinação que deu samba em mais de meio milênio da citricultura por aqui. Hoje, os pomares brasileiros produzem 34% das laranjas no mundo. Outro derivado dessa cadeia, é claro, é o suco de laranja: 60% da bebida in natura produzida no mundo também sai daqui. É a força do chamado ˜cinturão citrícola de São Paulo e Minas Gerais˜, especialmente na região de Ribeirão Preto. Mas por trás de tudo isso há muito estudo e testagem.

O Centro de Citricultura do IAC possui o maior banco global de ˜germoplasma”, o “RG da laranjeira”. Em outras palavras, os pesquisadores do polo possuem o maior estoque genético de variedades de pés de laranja do mundo. Imagine uma receita com queijo. Voce sabe que se usar mussarela e parmesao, vai conseguir um resultado. Ja se usar cheddar e ricota, talvez o resultado seja outro. 

A diferença é que no melhoramento genético dos pomares, os pesquisadores querem obter o pé de laranja mais resistente e produtivo possível, como nos explica a pesquisadora do IAC, Marinês Bastianel

“Aqui nós reunimos cerca de 1.800 materiais diferentes de citros, e isso é muito importante porque é a base. A gente fala que é um patrimônio mundial da citricultura para buscar novas variedades e selecionar novas. Também para parentais que sejam usados em programas de melhoramentos, indivíduos com características distintas, por exemplo a tolerância ao estresse hídrico, tolerância às principais doenças, materiais com qualidade superior, ou que contenham alguma característica desejável nos programas de melhoramento. E aqui também é um banco de genes, onde a gente vai fazer prospecção buscando, também, novas variedades e fomentando o programa de melhoramento genético”, explica.

A chamada “cigarrinha” é um inseto que mede só três milímetros, mas hospeda uma bactéria causadora do HLB (Huanglongbing), mais conhecido como ˜greening˜. Quando elas pousam na laranjeira, sugam a seiva e instalam a bactéria. 

Para o agricultor, é um verdadeiro terror na lavoura. Primeiro, as folhas ficam amareladas, um efeito parecido com uma reacao inflamatoria do nosso corpo. Depois, o ciclo de maturacao da laranja se desequilibra, e dá origem a frutos totalmente danificados e contaminados pelo HLB. 

A doença foi descoberta nos pomares do estado da Flórida, em 2004, e logo chegaram ao Brasil. Hoje, o greening é considerado o inimigo número 1 da agricultura. Os pesquisadores do IAC garantem que estamos mais perto de uma solucao para a praga, com equilibrio ecologico. 

“Alguns centros de pesquisa e pesquisadores preconizavam a questão do manejo, e ele realmente é o que tem segurado o avanaço do HLB aqui no Brasil. Mas penso que, daqui em diante, a gente talvez chegue no momento em que a gente vai trabalhar tentando obter materiais mais tolerantes, ou seja: a gente vai tentar conviver com a doença. Existem algumas variedades de porta-enxerto aqui no Centro de Citricultura que estão em estudo, mas que demonstraram possuir maior tolerância à bactéria. Então se a gente associar plantas de variedade de copa com a tolerância ao HLB e variedades de porta-enxerto que são igualmente mais tolerantes, quem sabe a gente possa conviver melhor com a doença. De forma que o pomar, mesmo que esteja infectado, tenha viabilidade econômica, produção com qualidade boa de frutos, redução na queda de frutos das plantas, os grandes problemas da HLB”, projeta.

Pesquisadores traduzem a genética do melhoramento

Confira a um bate-papo especial com os pesquisadores Marinês Bastianel e Rodrigo Latado, do Instituto Agronômico de Campinas, que nos ajudam a entender mais sobre a genética aplicada ao melhoramento da agricultura, especialmente na citricultura.

Conteúdos