Delegacia para PCDs se torna “2ª casa” e referência em atendimento humanizado

Parte da equipe do CAT de Campinas, que funciona há cinco anos na 2ª Seccional (Foto: Kevin Kamada/CBN Campinas)

A fala, essa expressão que permite que eu converse com você e traga as informações em mais uma reportagem, é um grande mistério do universo. Pelo menos nessa forma verbal, com códigos escritos, algarismos e palavras, só mesmo o ser humano tem. 

Os animais, por exemplo, interagem de outra forma. Os insetos, de outra. Mas esse privilégio da comunicação verbal entre os humanos tem nuances. Uns falam mais, outros menos. 

E a ciência também entende que existem aqueles que precisam se comunicar de outras formas. Crianças pequenas e adultos com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou outros transtornos mentais, por exemplo, têm uma necessidade totalmente diferente, como nos contam as mães Alessandra e Leni.

“Meu filho é verbal, fala bem, mas tem uma conversa muito restrita, de época e do interesse dele. Dependendo do mês, ele tem um interesse restrito e só fala aquilo”, conta Alessandra.

“Aqui em casa, a gente não tem tanta dificuldade porque ele tá num ambiente que ele conhece. Tudo o que ele quer ele mesmo pega. Só que lá fora, ele tenta se comunicar com as pessoas e elas não compreendem o que ele está falando, então ele me chama como se eu fosse uma ‘tradutora'”, detalha Leni.

Esse déficit de comunicação pode ser uma barreira em alguns contextos mais complicados como em casos de violência. De que forma elas podem pedir ajuda?

A resposta essa pergunta está na 2ª Delegacia Seccional de Campinas, onde funciona uma das cinco unidades paulistas do CAT (Centro de Apoio Técnico a Delegacias de Polícia).

O serviço nasceu em 2018, por força de um decreto estadual, e chegou a Campinas no final de 2021, com o objetivo de proteger e acolher a Pessoa com Deficiência Intelectual. Mas vai muito além disso.

Apesar de, muitas vezes, o ambiente policial ser associado ao crime e ao delito, pelo menos nesse espaço aqui o objetivo é o de se criar um ambiente humanizado.

Neste local trabalham cinco funcionárias do Instituto Jô Clemente (IJC), parceira do Estado desde 2018 na gestão dos CATs.

Na prática, qualquer pessoa pode ser atendida aqui, mas o olhar é especial para o PCD, que é acolhido com respeito na escuta, compreensão, construção do contexto e, principalmente, validação do depoimento da vítima, como faz a psicóloga Thaís Barreto.

“Então muitas vezes a pessoa que foi vítima de algum crime, ela está com dificuldade de acessar algum direito. Uma mãe que tem filho PCD e tem dificuldade de acessar rede escolar, serviço de assistência social, um benefício, ela também pode buscar orientação nos CATs”, detalha.

O silêncio que pode gerar incômodo, a nós, ouvintes, pode também ser expressão para centenas de pessoas com deficiência auditiva, um grupo que registrou crescimento na procura pelo CAT de Campinas em 2025.

Segundo a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, eles são seis entre cada 10 atendimentos feitos na unidade campineira desde 2021.

Mesmo na ausência da audição, o atendimento multidisciplinar garante que cada gesto ou expressão corporal, não passem despercebidos pela equipe, que é formada além das psicólogas por assistentes sociais e intérpretes de Libras. Atenção que ajuda a validar relatos e a trazer novos elementos, às vezes escondidos na forma de cada pessoa atendida se expressar.

“As Pessoas com Deficiência Intelectual têm um repertório de informações que é negado ao longo da vida. Às vezes, uma mulher não recebe informações que há diferenças no corpo de um homem e de uma mulher, do toque que é afetivo e o que é um abuso. Isso porque a sociedade ainda tem uma visão de que aquela pessoa é uma eterna criança, um ‘anjo’, que não vai ter sexualidade, o que é um mito. Quando a gente priva esse público de receber informações sobre educação sexual, por exemplo, a gente tá abrindo uma porta para que essa pessoa seja uma vítima de violência”, explica.

De 2022 a 2024, o CAT de Campinas realizou 3349 atendimentos a 2116 pessoas, sendo 1561 pessoas com deficiência.

Só em 2025 foram pelo menos 952 atendimentos a 686 pessoas. A psicóloga Thaís Barreto chama a atenção para o crescimento do número de mulheres, que foram 71% do total de atendimentos no ano.

“Muitos desses casos acabam voltando, tanto pra pessoa contar um pouco como foi o encaminhamento, se deu certo ou não. Muitas vezes é necessário reavaliar esse encaminhamento. No geral, a gente percebe que a pessoa retorna porque ela criou um vínculo com a equipe. Ainda que seja uma demanda que ela suspeitou de uma violação, ela foi tão bem acolhida que ela acaba voltando pra ser orientada novamente”, conta.

Segundo o Atlas da Violência 2024, do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), as mulheres com deficiência foram os principais alvos de agressão no país, com proporção de 57,2 vítimas para cada 10 mil pessoas.

Para a assistente social e idealizadora do projeto Teoria na Prática, Aline Figueiredo, o exemplo dos Centros de Apoio permite que as pessoas com deficiência subam mais um degrau de visibilidade, ainda em um universo que finge não ver os PCDs.

“Eu acho que a violência do PCD, de gênero e doméstica, no boletim de ocorrência por não haver o campo ‘deficiência’, ela entra na estatística geral. Cabe ao policial formas de trazer essa visibilidade para questões de gênero e outros marcadores”, cobra.

Além de Campinas, o Centro de Apoio Técnico para PCDs também está presente nas cidades de Ribeirão Preto, Guarulhos, Santos e na capital.

Para o coordenador do Programa Estadual de Prevenção e Combate à Violência contra Pessoas com Deficiência, Rafael Batini, o modelo de atendimento do Centro de Apoio Técnico inspira um atendimento humanizado que amplia a missão do serviço policial.

“Essa pessoa chega e traz consigo uma história, não só o fato que levou ela à delegacia. O CAT faz o atendimento e, ao longo do tempo, a gente conseguiu perceber que muito do que ele faz é socioassistencial: pra além da feitura do boletim de ocorrência, dá para providenciar outros tipos de esclarecimento, um serviço público mais completo do que estritamente a confecção de um B.O. em que ela conta o caso, faz o boletim e vai embora”, avalia.

Os Centros de Apoio Técnico são gratuitos e funcionam de segunda a sexta, do meio-dia às 18h00. Em Campinas, o CAT fica localizado na 2ª Delegacia Seccional, na Rua Oswaldo Oscar Barthelson, 713, no Jardim Paulicéia. Em Ribeirão Preto, o Centro funciona na Delegacia de Defesa da Mulher, na Avenida Costábile Romano, 3230, no Nova Ribeirânia.

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