Em 1970, o IAC (Instituto Agronômico de Campinas) já somava 38 anos de estudos do feijão, quando o pesquisador Luiz D’Artagnan (1941-2026), fez uma verdadeira façanha.
Nos testes para descobrir maneiras de melhorar a qualidade do feijão, D’Artagnan estava em Palmital (SP), quando descobriu uma lavoura de feijões que produziam mais do que os outros.
Eram grãos parecidos com uma espécie de porquinho, o “carioca”. O engenheiro agrônomo Sérgio Carbonell, do Programa Feijão do IAC, é quem recorda bem dessa história.
“Surgiu com uma mutação de planta de uma plantação de [feijão] mulatinho, e surgiu uma planta de fundo claro e listras marrons. O agricultor separou essa planta, pegou essa semente, plantou novamente e começou a perceber que ela era mais tolerante a doenças, mais produtiva, era de fácil cozimento, um ótimo paladar, rendimento de panela. E aquela coloração de grão se assemelhava muito a um porco que criava na fazenda, o ‘caipira’, de pelagem marrom com listras. E ele apelidou de carioca”, explica.
Passados 55 anos, o feijão carioca – ou carioquinha – se consolidou como um dos mais consumidos no Brasil e no mundo. Uma combinação no prato que une gosto e demanda.
Mais de meio século de pesquisa deram origem a 14 gerações de tipos de feijão, os chamados “cultivares”. Um mais moderno do que o outro, sempre com melhorias.
A mais recente recebe o apelido de “IAC 2560 – Nelore”, e foi apresentada na edição 2025 da Agrishow, em Ribeirão Preto.
O professor Carbonell é uma das cabeças a frente do projeto, e conta que a nova cultivar do feijão carioca é o melhor exemplo do uso da tecnologia para melhorar alimentos.
“Então é um feijão que não escurece após o cozimento, que tem tolerância de escurecimento do tegumento. Você pode armazenar na prateleira ou dentro de uma geladeira que ele fica um ano com a mesma característica de colhido. Ele é mais resistente a doenças. O agricultor vai usar menos defensivos na lavoura, vai ter menos resíduos no produto, vai ter menos perigo ao aplicador/agricultor, menos resíduos pro meio ambiente. É um feijão que vai cozinhar mais rápido. O carioca tradicional cozinhava em 50, 60 minutos. Na 14ª geração, cozinham em 20 minutos”, destaca.
E você pode se perguntar se com tantas evoluções, o gosto do feijão mudou nestes 50 anos. O pesquisador nos garante que não. Dentro das pesquisas de laboratório, o Instituto Agronômico mantém um rigoroso processo de verificação das variações de sabor e até da textura do grão.
O sonho de Carbonell é que, com os novos hábitos alimentares e a busca por alternativas ao consumo de proteína, o feijão, um dia, seja tão cultuado quanto o vinho.
“Hoje nós temos uma população com bastante percentual de vegetarianos e veganos, que querem um novo tipo de proteína e não a animal. O feijão oferece tudo de bom para essa população, que cresce ano a ano. Eles podem variar: hoje comer um feijão preto, depois um carioca, no outro dia um rajado. Num outro um cranberry, um branco, um vermelho pequeno, um vermelho grande. E todos eles têm sabores e odores diferentes, que pode proporcionar pratos diferentes para esse público que tá cada vez mais necessitando de uma nova proteína para a alimentação”, comemora.
Com arroz ou na salada, a mistura é você quem faz. Certeza mesmo é que graças à agronomia do Brasil, o feijão ganha espaço como um alimento multifuncional e completo, que vai continuar nos nossos pratos por muito tempo.
Mais de 90 anos de pesquisa
Ouça abaixo a uma entrevista com o engenheiro agrônomo Sérgio Carbonell sobre os 93 anos de pesquisa do IAC sobre o feijão.




