O segundo episódio da série especial da CBN “Liberdade de Crer – Quando a fé vira alvo da intolerância” volta o olhar para o cristianismo evangélico, uma das expressões religiosas que mais cresceram e ganharam visibilidade no Brasil nas últimas décadas. Presente nas ruas, na música, na mídia, nos grandes eventos e no debate político, a fé evangélica se tornou parte central da vida cotidiana brasileira.
O episódio parte de um resgate histórico para explicar as origens desse movimento. A narrativa começa no século 16, com a Reforma Protestante liderada por Martinho Lutero, que rompeu com a autoridade exclusiva da Igreja Católica e defendeu o acesso direto à Bíblia. Segundo a professora da Unicamp, Brenda Carranza, esse princípio ajudou a impulsionar a alfabetização e a criação de escolas, mudando não apenas a religião, mas a organização social da época.
No início do século 20, um novo marco redefine o protestantismo: o surgimento do pentecostalismo, em 1906, nos Estados Unidos. A fé passa a ser vivida de forma intensa, com forte presença da música, da emoção e do corpo. Essa experiência espiritual atravessa fronteiras e chega ao Brasil, onde encontra terreno fértil em meio à desigualdade social.
De acordo com o episódio, o crescimento evangélico no país acontece de forma gradual, especialmente nas periferias urbanas, entre trabalhadores e famílias de baixa renda que buscam acolhimento, pertencimento e esperança. Esse processo, inicialmente invisível para as elites, foi marcado também pelo preconceito de classe.
Com o passar das décadas, o cristianismo evangélico amplia sua presença no espaço público. A música gospel se transforma em fenômeno cultural, ocupando palcos, rádios e plataformas digitais. Eventos como a Marcha para Jesus, criada nos anos 1990 e incorporada ao calendário nacional em 2009, se consolidam como símbolos dessa fé em movimento. Para o bispo Geraldo Tenuta, da Igreja Renascer em Cristo, a força da Marcha está na união entre diferentes igrejas, acima das diferenças doutrinárias.
O episódio também aborda a entrada de setores evangélicos na política. A partir da segunda metade do século 20, igrejas passam a ocupar espaços de poder e a defender pautas morais. Brenda Carranza alerta para os riscos quando grupos ultraconservadores tentam impor valores religiosos ao conjunto da sociedade, mas reforça que não existe um único perfil evangélico e que generalizações alimentam novos preconceitos.
Além das tensões e contradições, a reportagem destaca um aspecto menos visível, mas fundamental: o trabalho social realizado por igrejas evangélicas em comunidades, com ações de acolhimento, apoio emocional, recuperação de dependentes químicos e assistência a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Ao final, o episódio mostra que o cristianismo evangélico não cabe em rótulos simples. É diverso, plural, contraditório e profundamente brasileiro. Compreender essa fé, afirma a série, é um passo essencial para reduzir estigmas, ampliar o diálogo e fortalecer a convivência em uma sociedade marcada pela diversidade religiosa.
No próximo episódio, a série “Liberdade de Crer” aborda o cristianismo católico, suas tradições, transformações e os desafios enfrentados pela Igreja no Brasil contemporâneo.