Nem mesmo a falha elétrica que afetou o prédio da Câmara Municipal desde as primeiras horas de segunda-feira (2) impediu a abertura dos trabalhos do Legislativo em 2026.
Nas primeiras duas horas de sessão, a Casa funcionou apenas com auxílio de geradores, que elevaram a temperatura do Plenário.
Na checagem de quórum, 23 dos 33 parlamentares estavam presentes, número suficiente a análise de propostas como o Projeto de Lei Complementar que institui a política de cotas para os concursos públicos realizados na cidade. O texto foi aprovado com 20 votos a favor e dois contrários.
A proposta, de autoria do prefeito Dário Saadi (Republicanos), reserva 30% das vagas nos processos seletivos, sendo 25% delas para pretos e pardos, 3% para indígenas e 2% para quilombolas.
A vereadora Fernanda Souto (PSOL), lembrou que Campinas foi uma das últimas cidades a abolir a escravidão, e que as cotas são um instrumento de reparação histórica.
“Inclusive porque o Brasil é um país que foi formado e fundado na escravização de pessoas negras que não foram devidamente incluídas no processo de cidadania após a abolição da escravidão. E pior ainda em Campinas, que nós temos a cidade reconhecida nacionalmente como a última a abolir a escravidão”, afirmou.
Já a vereadora Paolla Miguel (PT) destacou que o projeto dá voz à comunidade negra.
“A gente precisa, sim, todas as vezes que temos a oportunidade, de contar a nossa história. Contar que a cidade de Campinas foi construída pela nossa população. Mas quando Campinas pôde, o que ela fez foi, muitas vezes, ameaçar a nossa sobrevivência. Mas esse projeto vem, justamente, para que a gente olhe para isso e que a gente possa pensar em como a gente muda o nosso serviço público a partir do que é o serviço público”, avaliou.
Os parlamentares também aprovaram, com 22 votos favoráveis, outro Projeto de Lei Complementar enviado pelo Palácio dos Jequitibás, e que cria as normas para a realização de concursos públicos.
Um dos pontos do texto proíbe a realização do “cadastro de reserva”, que dificulta o chamamento de muitos candidatos.
Panes nos ônibus
Na primeira parte da sessão, o tradicional espaço para discurso em tempo de liderança foi amplamente usado pelos vereadores para retomar assuntos locais e nacionais desde o início do recesso, em dezembro.
O vereador Nick Schneider (PL), cobrou que as panes frequentes nos ônibus sejam revistas, e declarou que a Câmara faz seu papel de cobrar soluções.
“Veja, a licitação está prevista para alguns dias, então qualquer medida que a Câmara tome nesse intervalo é um período curto até que se aconteça a licitação. Nós estamos vendo um problema se encaminhando para ser resolvido. Nem por isso a gente deixa de ter indignação com os problemas. Mas no que cabe à Câmara, a pressão está sendo feita, todos os dias, todas as sessões, tem vereador falando sobre isso. Mas é um problema de gestão que não é de hoje, e o prefeito está encarando esse problema”, declarou.
Debate sobre a PPP
O vereador Wagner Romão (PT) lembrou das audiências públicas para a construção do Sistema Adutor Regional das barragens de Pedreira e Duas Pontes, em Amparo. O parlamentar disse estar preocupado com a falta de debate sobre a proposta.
“A gente tem visto muito pouca conversa, muito pouco debate na cidade. Isso vai trazer consequências graves porque, o que o Governo do Estado está fazendo é contratar uma empresa para fazer a gestão desses equipamentos relacionados aos recursos hídricos, que vai gerar um aumento na tarifa para toda a região ligada ao PCJ”, afirmou.
Arranhões no Legislativo
Também nesta segunda-feira, a Corregedoria da Câmara Municipal anunciou a proposta de um Projeto de Resolução para suspender o mandato do vereador Otto Alejandro (PL) por 45 dias e sem remuneração.
A proposta, dos seis vereadores proponentes da investigação, vem depois da identificação de infração ética e disciplinar, no caso em que Otto se envolveu em denúncias de violência doméstica e vandalismo a ônibus em Campinas. Em dezembro, a Comissão Processante sobre o caso decidiu pelo arquivamento da investigação.
O presidente da Câmara, vereador Luiz Rossini (Republicanos) disse esperar que 2026 não seja marcado por novos episódios como este, que em sua avaliação, arranham a imagem do Poder Legislativo.
“Toda vez que a Câmara é alvo de uma investigação ou até de uma ação de Comissão Processante contra vereador, isso ofusca, apaga, arranha a imagem da instituição. Isso me preocupa. Eu espero que a gente não tenha isso esse ano. É claro que depende do comportamento individual de cada vereador. A gente procura orientar, mostrar a eles qual é a missão do vereador. Quando alguém assume um mandato, ele se investe de uma responsabilidade que vai além do pessoal”, ponderou.
O projeto de resolução para suspender o mandato de Otto Alejandro (PL) deve ser votado na sessão da Câmara da noite de quarta-feira (4).
Primeiro bate-boca do ano
Entretanto, a primeira reunião ordinária da Câmara de Campinas não passou ilesa a um bate-boca. Nos minutos finais da sessão, foi votada proposta de moção do vereador Marcelo Silva (PSD) para homenagear o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) pela “iniciativa cívica e política de realizar uma caminhada até Brasília”.
Depois do parecer favorável exarado pela Comissão de Constituição e Legalidade, representada pelo vereador Eduardo Magoga (Podemos), a proposta foi questionada pela vereadora Mariana Conti (PSOL), que iniciou discussão com Marcelo Silva. Com um aparte de Luiz Rossini para colocar o projeto em votação, o texto foi aprovado.