O terremoto que atingiu o Haiti em janeiro de 2010, deixando mais de 200 mil mortos e milhares de desabrigados mudou a história de muitos . A economia do país já estava devastada pela instabilidade política e pelos conflitos internos que motivaram, inclusive, a intervenção da Organização das Nações Unidas.
A situação do país obrigou os sobreviventes a buscarem alternativas e muitos haitianos decidiram deixar o país com o objetivo de reconquistarem a cidadania em seus aspectos civis, políticos e sociais.
O Brasil acabou sendo um dos destinos e Campinas, segundo o levantamento da Secretaria Municipal de Cidadania recebeu até hoje, cerca de mil haitianos. Em 2011, Soinel Augustin chegou ao Brasil. Ele que tinha um bom trabalho e vida estável junto de sua família até antes do terremoto e da turbulência política conta que a cidadania, por lá, ficava apenas na teoria depois de todos os problemas.
No Brasil, Soinel arrumou emprego em Belo Horizonte mas tempos depois foi transferido para Campinas. Por meio de um amigo francês, foi incentivado a fazer um curso para aprender a língua portuguesa e acabou encontrando no município a oportunidade.
O curso de alfabetização na Língua Portuguesa que a Fumec (Fundação Municipal para Educação Comunitária), órgão vinculado à Prefeitura de Campinas, realiza, acabou sendo o elo para que Soinel recomeçasse a gozar de sua cidadania. Não a burocrática entre os países, mas aquela que afeta o dia a dia das pessoas, afinal, sem falar a língua local, ele percebeu que seria difícil ter acesso a uma vida social, conseguir um trabalho e vaga na escola para os filhos. Por isso, Soinel fala da importância do curso não apenas para ele.
E é através da cidadania que se busca a promoção humana. E aí, a educação é colocada como ferramenta fundamental para esse avanço.
Na Fumec, uma das responsáveis em levar o conhecimento aos haitianos é Roseli de Fátima Ruiz. Ela é professora na Fundação há mais de 20 anos e também leciona nas classes para refugiados. Para ela, o tempo que fica com eles é mais do que passar um conteúdo mas fazer a diferença em suas vidas.
A professora na Universidade Federal de Uberlândia e pós-doutoranda do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, Patrícia Villen, fez um trabalho de pesquisa, recentemente, que abordou a vinda dos imigrantes ao Brasil e os problemas de cidadania enfrentados. Ela classificou como vital a existência de cursos como esse para a promoção humana dos refugiados e imigrantes
Hoje a Fumec conta com sete classes especiais para os refugiados, entre haitianos, sírios e palestinos, com cerca de 150 alunos. Também há outras classes de brasileiros. Além do curso de Alfabetização na Língua Portuguesa, a Fumec realiza aula de reforço na Língua Portuguesa e Matemática. O trabalho começou no primeiro semestre de 2014 e as aulas acontecem de segunda à sexta-feira em vários pontos espalhados pela cidade.
Patrícia Villen ressaltou a importância desses cursos ocorrerem em locais acessíveis para esse público já que, em vários casos, a distância acaba por inviabilizar a frequência nas aulas.
Mas a promoção humana, a melhoria na qualidade de vida, nem sempre pode ser vista por aquele que cruzou o caminho daqueles que mais precisavam. Mesmo assim, a professora da Fumec, Roseli de Fátima Ruiz se alegra em saber que pode colaborar no desenvolvimento de alguém
Já com seus dois filhos na escola, o haitiano Soinel Augustin usou a expressão “estar com as pernas apertadas” para dizer que não pensa em voltar ao Haiti, por enquanto. Se a situação política melhorar por lá, aí talvez. Mas depois que os filhos crescerem e a promoção humana se der por mais uma geração através da educação: a dos filhos de Soinel